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CARTA DE UM ANTROPÓLOGO KAIOWÁ SOBRE INTIMIDAÇÃO SOFRIDA EM FRENTE A UMA ALDEIA INDÍGENA NO ESTADO DE MATO GROSSO DO SUL, BRASIL

11 abr

Tonico Benites. Foto: João Garrigó

Prezados (as) autoridades federais,
Eu, Tonico Benites, vim por meio desta mensagem comunicar a todas autoridades federais que hoje de manhã, sexta-feira [06/04/2012], às 10h20, na estrada pública, em frente da aldeia Pirajuí-Paranhos-MS, um homem não índio, com dois revólveres na mão cercou a estrada e me mandou parar o carro, pedindo para eu descer dele.

Diante disso, eu falei para minha esposa, que estava junto comigo, além da crianças: “É hoje que pistoleiro vai me matar; eu vou descer”. “Você desce e pega a chave do carro e as crianças, e vai correndo avisar as lideranças da aldeia Pirajui”.

Ela começou a chorar com as crianças. Abri a porta e desci. O homem começou me pedir documento pessoal e do carro; passou a me interrogar. Entreguei a ele os documentos, ele olhou meu documento e falou: “Hã! vc é o Tonico Benites né!?, o que veio fazer por aqui!, conta? Hoje vamos conversar seriamente!”
Respondi: “Sim, eu mesmo. Vim visitar a família da esposa e parentadas aqui na aldeia Pirajui e Potrero Guasu”. Ele falou: “É só isso??” respondi que sim. Comecei entrar em estado de raiva, medo e desespero, e perguntei o que pretendia fazer comigo e a mando de quem? Ele riu e disse: “Você é inteligente, né? Que bom!?”.
Enquanto isso, a minha esposa gestante de 7 meses, e as crianças irmãzinhas dela começaram a chorar dentro do carro. O homem, ao ouvir o choro, falou-me naturalmente: “Você tem filhos e esposa, né? Gosta dela e de teus filhos? hein?! fala?” Respondi que sim.

Então ele passou me ameaçar: “Você vai perder tudo, ela que você ama e filhos que gosta, vai perder, Vai perder carro. Vai perder dinheiro. Tudo você vai perder. Você quer perder tudo? Você quer perder tudo?”, ele repetiu várias vezes essas pergunta. Respondi: “Não! Não! Não!”

Já tinham passado mais de 20 minutos e a chuva estava chegando. “Você tem dinheiro?” Passou a me pedir a carteira do bolso. Entreguei a ele. “Hã! você tem sim! E vai começar perder.” E pegou tudo o que eu tinha na carteira. Pediu-me várias vezes para não voltar mais àquela aldeia e região. “Se você promete que nunca mais vai volta por aqui vou soltar você vivo. Respondi: “Sim, sim!”.
Ele falou: “Não estou não sozinho não; somos muitos. Aqui estamos só quatro. Tá vendo?”, indicando o matinho. “Você não está fazendo o trabalho que presta, sabia não?”, referindo-se à ocupação da terra e pesquisa antropológica. Ele sabe tudo sobre mim e meu trabalho. Fala bem língua guarani.

Depois se apresentou dizendo que ele é polícia do Paraguai. A vestimenta dele é similar a traje da polícia da Força Nacional. Pediu para eu não contar para autoridade, não! Só assim me soltaria vivo e nem levaria o carro, e nem machucaria minha esposa e crianças. Prometi que não contaria para ninguém.
Mais ou menos por 40 minutos, ele me falou: “Vai embora daqui! Nunca mais quero ver você por aqui.” Respondi que sim!, se me soltasse, eu não voltaria àquela aldeia. Por último, disse: “Vou ficar de olho em você, hein?!
Assim me liberou. Não me machucou fisicamente, mas verbalmente sim; psicologicamente saí traumatizado, tremendo, muito medo. Às 10h45 fui direto à casa da liderança indígena da aldeia Pirajuí. Contei-lhe e ele ligou para a delegacia de Polícia Civil, em Paranhos, mas ninguém atendeu. Achamos que, por conta do feriados.

Imediatamente, as comunidades de Pirajuí se juntaram, querendo saber do acontecimento. Contei a todos o fato ocorrido. O Otoniel já se encontrava no interior da aldeia Pirajuí, e Eliseu já estava em Ypo’i. Minha esposa ficou muito mal, pediu para retornar a Dourados. Por isso, pedi às lideranças para me escoltar até a cidade de Paranhos. Eles me escoltaram com várias motos, deixando-me na cidade em Paranhos-MS. Retornei a Dourados, chegando lá às 20h30, e passei a escrever o fato ocorrido comigo hoje.

A liderança da aldeia Pirajuí me pediu para retornar segunda-feira para registrar queixa na Polícia Civil. Mas sozinho não quero voltar para lá, não. Preciso fazer algo mais diante disso.
O Otoniel e o Eliseu se encontram na região de Paranhos-MS.

Att,
Tonico

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Tonico Benites – é guarani-kaiowá, mestre e doutorando em Antropologia Social da UFRJ. Grande articulador da Luta dos Guarany Kaiowá no MS.  Toda a protecao federal à Tonico e a sua família. Como se sabe, o Mato Grosso do Sul é uma das regioes mais violentas massacrantes sobre os Direitos indígenas dos Guarani Kaiowá. Nós daqui do “PPABerlin” estamos sempre divulgando, comentando e distribuindo as denuncias, os manifestos, as peticoes e os pedidos de socorro,  que as Liderancas Guarany e o movimento indígena no Brasil nos fazem chegar às maos. Sentimos que fazemos parte da luta insana contra essa verdadeira máquina latifundiária asssassina, inclusive com a conivencia de autoridades públicas e políticos,  que quer exterminar parte da nacao Guarani Kaiowá no Brasil – Ras Adauto.

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Maurício Fonseca escreveu no facebook sobre Tonico Benites:

TERRORISMO DO AGRO-NEGÓCIO CONTRA OS ÍNDIOS: LIDER ANTROPÓLOGO GUARANI KAIOWA E SUA FAMÍLIA AMEAÇADOS DE MORTE

Tonico Benites é uma importante liderança Guarani Kaiowá. Entre diversos papéis que desenvolve, integra o Colegiado Setorial das Culturas Indígenas do Ministério da Cultura, onde eu o conheci. É antrópologo, foi estudar antropologia para entender as cabeças dos brancos e poder defender melhor os direitos indígenas. No dia 06 de Abril ele e sua família viveram uma experiência digna dos piores filmes de terror. Ele relata os fatos de forma detalhada na carta abaixo. Situação absurda que mostra que os fazendeiros estão dispostos a tudo para esmagar o movimento indígena. Agora usam capangas contratados no Paraguai. Aliás, os fazendeiros brasileiros estão lá, ocupam grandes áreas deste país, na divisa com o Brasil. Os camponeses e indígenas paraguaios também sofrem a pressão dos fazendeiros brasileiros.
Dá para aceitar isto? Divulgando os fatos estaremos nos contrapondo, no esforço para sensibilizar as autoridades brasileiras. Não dá para aceitar a continuação do genocídio.

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Ritual de Benção Kaiowá Guarani – Aty Guasu – Takuara – MS

 

Uma resposta para “CARTA DE UM ANTROPÓLOGO KAIOWÁ SOBRE INTIMIDAÇÃO SOFRIDA EM FRENTE A UMA ALDEIA INDÍGENA NO ESTADO DE MATO GROSSO DO SUL, BRASIL

  1. mamapress

    abril 12, 2012 at 7:46 am

    Reblogged this on Mamapress and commented:
    Lmentável! Quando os er humano será respeitado em nosso Brasil?

     

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