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Arquivo mensal: setembro 2012

Mensagem do “MC Emicida” sobre o Programa racista Zorra Total da TV Globo

Mensagem do “MC Emicida” sobre o Programa racista Zorra Total da TV Globo

Foto: emicida.tumblr.com

De Emicida

Voltei do Jantar agora a noite e a Van, dessas moderninhas que tem televisão e tudo mais, estava transmitindo Zorra Total, Já havia visto uma vez alguma manifestação, talvez através do Geledés que aquele personagem que estereotipa a mulher negra suburbana era extremamente racista e contribuia fortemente com a desvalorização (maior ainda?!?!?) da mulher preta em nossa sociedade ( e olha que é dificil conseguir desvalorizar mais ainda a mulher negra em nossa sociedade ).

Elas Recebem menos, tem suas caracteristicas fisicas criminalizadas por uma ditadura eurocêntrica de beleza (isso se aplica aos homens pretos também), são abandonadas, representam uma porcentagem monstruosa das adolescentes grávidas e das mães solteiras, das que não conseguem um (bom) emprego e quando conseguem retornam cansadas ao sábado a noite para suas humildes casas para ser alvo de um quadro extremamente racista onde são humilhadas por um programa de humor (que nem engraçado é pra começar, Zorra total é ruim pra caralho ) no maior canal de televisão do País.
Estamos em um momento delicadissimo na história do Brasil, Discute-se sobre o Racismo na obra de Monteiro Lobato, Cria-se um Plano de prevenção a violência contra a juventude negra porém um ataque contra a Etnia que mais trabalhou por este país passa despercebido desta forma, como uma piada, o mesmo tipo de piada que foi hospederia durante todos estes séculos da doença que é o Racismo ( e só o dono da dor sabe o quanto dói ), em um Brasil que tornou crime o racismo (vitória!) mas conseguiu humilhar cada um dos que um dia tentaram denunciar algum caso de Discriminação racial (derrota!) tornando sua própria lei, uma irônica punhalada que faz o sangue preto rico em sofrimento continuar correndo invisível por nossas ruas.

Deixo aqui meu desprezo a este “humorista” que aproveita-se da triste situação em que esta sociedade doente colocou nossas mães/irmãs/esposas/amigas. E maior ainda é minha tristeza com nossos irmãos Pretos/Brancos/Indios que não conseguem identificar tamanha violência racial adentrando suas casas.

Muita Força as Mulheres Pretas, as nossas lindas Mulheres pretas!
Jamais se esqueçam de onde vem os diamantes Mulheres pretas!

Emicida

A rua é nóiz

Na foto divulgacao: a personagem “Adelaide” do Zorra Total

Emicida – Dedo na Ferida

scratchs ( pimenta nos zóio dos politicos )
Foda-se vocês, foda-se suas leis!
scratchs ( a fúria negra ressuscita outra vez )
Foda-se vocês, foda-se suas leis!
scratchs ( anota meu recado)
Foda-se vocês, foda-se suas leis!
scratchs ( primeiro eu quero que se foda )
Renan Samam, Emicida, o rap ainda é o dedo na ferida…

Vi condomínios rasgarem mananciais
a mando de quem fala de Deus e age como Satanás.
(Uma lei) quem pode menos, chora mais,
corre do gás, luta, morre, enquanto o sangue escorre —
é nosso sangue nobre, que a pele cobre,
tamo no corre, dias melhores, sem lobby.
Hei, pequenina, não chore.
TV cancerigena,
aplaude prédio em cemitério indígena.
Auschwitz ou gueto? Índio ou preto?
Mesmo jeito, extermínio,
reportagem de um tempo mau, tipo Plínio.
Alphaville foi ilusão, incrimine-os
Grito como fuzis, Uzis, por brasis
que vem de baixo, igual Machado de Assis.
Ainda vivemos como nossos pais Elis
quanto vale uma vida humana, me diz?

Foda-se vocês, foda-se suas leis!
scratchs ( a furia negra ressuscita outra vez )
Foda-se vocês, foda-se suas leis!
scratchs ( anota meu recado)
Foda-se vocês, foda-se suas leis!
scratchs ( primeiro eu quero que se foda )
Renan Samam, Emicida, o rap ainda é o dedo na ferida…

É só um pensamento, bote no orçamento
nosso sofrimento, mortes e lamentos,
forte esquecimento de gente em nosso tempo
visto como lixo, soterrado nos desabamento
em favela, disse Marighella. Elo
contra porcos em castelo
o povo tem que cobrar com os parabelo
porque a justiça deles, só vai em cima de quem usa chinelo
e é vítima, agressão de farda é legítima.
Barracos no chão, enquanto chove.
Meus heróis também morreram de overdose,
de violência, sob coturnos de quem dita decência.
Homens de farda são maus, era do caos,
frios como halls, engatilha e plau!
Carniceiros ganham prêmios,
na terra onde bebês, respiram gás lacrimogênio.

Foda-se vocês, foda-se suas leis!
scratchs (a fúria negra ressuscita outra vez)
foda-se vocês, foda-se suas leis!
scratchs (anota meu recado)
Foda-se vocês, foda-se suas leis!
scratchs (primeiro eu quero que se foda)
Renan Samam, Emicida, o rap ainda é o dedo na ferida.

Ficha Técnica:

Música: Dedo na Ferida
Artista : Emicida
Beat: Renan Samam
Scratches: Dj Nyack
Captação e Edição: Nicolas Prado
Arte: Shock
Mixagem e Masterizacão: Bruno Pompeo e Guilherme Chiappetta

Agradecimentos especiais:

Herbert do Sindicato dos metalurgicos de SJC pelas imagens internas do pinheirinho.

Dedicado a todos os focos de resistência popular que dia após dia, sofrem perante a ganância de corporações e empresários.

 

Para os tribunais internacionais: O Genocídio da Juventude Preta e Pobre no Brasil, agora!

Foto arquivo pc.

Gente, a barra está pesada para nós. Se nao agirmos e partimos para cima com tudo, os jovens negros serao realmente destruidos. O Brasil está violento demais com a juventude afrobrasileira. Vide o sistemático exermínio de jovens pretos no Rio de Janeiro, Pernambuco, Alagoas, Bahia, Espírito Santos, só para ficarmos nos Estados que apresentam as mais gritantes estatísticas dessa mortandade. Dos grandes números de jovens mortos nesse momento no país, mais de 90% já sao jovens pretos e pobres das chamadas periferias urbanas. Em sua grande maioria homens (91%) e com maior incidência na faixa etária entre 20 e 25 anos. É alarmante também os assassinatos de jovens pretos entre 15 a 18 anos.

Estamos vivendo uma grande contradicao social. Enquanto se alardeia por aí o desenvolvimento economico brasileiro, inclusive atraindo às atencoes para os holofotes dos países mais ricos, que nesse momento estao em crise; enquanto se alardeia a ascensao de uma nova classe média no país, esses milhares de jovens pretos e pobres estao sendo apagados terminantemente, com a conivencia e o silencio de grande parte do Brasil, inclusive dos partidos políticos, das chamadas esquerdas, dos academicos, etc.

Organizacoes dos Movimentos Negros e de Direitos Humanos estao em campo numa luta insana para convencer e chamar a atencao da sociedade brasileira sobre esse genocídio. É uma tarefa monstruosa num país em que grande parte de sua sociedade nao está nem aí para isso e partes acham que é isso mesmo, como se le nas cartas de leitores dos grandes jornais e em muitas redes na internet.

O governo federal lancou essa semana, o Plano de Prevenção à Violência contra a Juventude Negra, denominado “Juventude Viva”, que é coordenado pela Secretaria Nacional de Juventude, da Secretaria-Geral da Presidência da República, e pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.

Mas só isso nao basta: Eu sempre propaguei que o assunto já saiu da esfera nacional e deve entrar para os tribunais internacionais de direitos humanos e de extermínios de guerra.

O sangue e a vida de nossos jovens estao escorrendo pelos esgotos sujos dao Brasil, pela polícia, pelas milícias e esquadroes da morte, pelo narcotráfico, pela pobreza congenita, pelo siencio e a conivencia de grande parte da sociedade brasileira.

No Brasil nesse momento está acontecendo programaticamente a Higienizacao Étnica em seu mais estado puro! Estao passando a limpo o Brasil preto e pobre, que nao está convidado para o grande banquete da nossa ascencao economica mundial.

Matam-se pretos como se matam baratas, piolhos!

Ras Adauto
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Leiam por exemplo essa caso acontecido em Santa Cartarina:

“Em SC, racismo, agressões e eletrochoques

Aconteceu em São Miguel do Oeste, cidade de 35 mil habitantes na região oeste de Santa Catarina. No último dia 21/9, três rapazes negros foram agredidos e expulsos da área VIP do show do conjunto Charlie Brown Jr., para onde haviam sido convidados pela organização do evento, por seguranças da empresa Patrimonial armados com dispositivos de choque elétrico. O irônico em tudo isso é que o show fazia parte da Festa das Etnias.

Os jovens são Luís Henrique de Sousa, 25 anos, professor de condicionamento físico, colaborador de uma ONG que trabalha com jovens em conflito com a lei; Luahn Henrique da Conceição Almeida, 22 anos, estudante de contabilidade do Instituto de Ensino Superior de Brasília (IESB), morador de Sobradinho, cidade satélite de Brasília; Marco Aurélio Barbosa dos Santos, 37 anos, motorista e microempresário. Fazem parte de um grupo de dez militantes petistas que excursiona pelo sul do país, a Caravana da Juventude do PT do Distrito Federal.

“Assim que eles entraram na área VIP, um grupo começou a fazer chacota”, relata Iara Cordeiro, da direção nacional da Juventude do PT. “Luis Henrique foi provocado e levou um empurrão. Logo em seguida vieram os seguranças e deram choques nos meninos: ‘O que vocês, pretos, estão fazendo na área VIP?’ Quando Luis Henrique mostrou a pulseira fornecida pela organização, um segurança disse: ‘De onde é que vocês roubaram isso?’ E dando choque”.

Luahn, que é asmático, levou uma gravata dos seguranças, cacetadas e eletrochoques, e desmaiou. Os jovens foram chamados de “urubus”, “macacos”, “pretos safados”. A Polícia Militar, chamada a prender os agressores, recusou-se. Posteriormente, o segurança que liderou as agressões procurou a Caravana para tentar negociar a retirada do boletim de ocorrência, sugerindo, sem nenhuma sutileza, que o episódio pode ser prejudicial ao PT, partido do prefeito, que busca a reeleição. Na conversa, ele admitiu as agressões, chegando a alegar que precisou dar uma cacetada em Luahn, porque era mais fácil fazê-lo descer as escadas desmaiado do que se debatendo…

A seguir, os principais trechos da Nota emitida pela Caravana:

Nota da Caravana da Juventude do PT-DF

A Caravana da Juventude do PT-DF chegou em São Miguel do Oeste (SC) no dia 13 de setembro, depois de passar por cidades de GO, MG e PR.

Na noite de sexta-feira (21), aconteceu a abertura da Festa das Etnias da cidade e os integrantes da Caravana que são negros foram convidados para fazer uma apresentação. Luís Henrique e Luahn fizeram um stand-up chamado “Coisa de Preto”. Após uma semana na cidade, andando em uma van plotada com a logo da JPT, todos já nos reconheciam na rua. Movimentamos a campanha do candidato a prefeito nas redes sociais, que é o único prefeito ex-assentado do país, e depois da apresentação dos meninos, ganhamos cortesias para o camarote do Show do Charlie Brown Jr., que aconteceria na mesma noite, com direito a conhecer a banda e tirar fotografias com eles no Hotel antes da apresentação.

Logo depois, o grupo se encaminhou para o local do show e ao entrar na área VIP, uma parte do grupo foi para frente do palco e a outra, os negros, ficou no fundo, na parte mais afastada do palco. Neste momento um grupo de jovens da cidade (onde um deles é filho de uma candidata a vereadora pelo PSD, que é oposição na cidade, e tem uma produtora que é apoiadora da candidatura do adversário PMDB), começou a ironizar os meninos e um deles esbarrou no Luís Henrique, que levantou as mãos e disse que não estava lá para brigar e sim para curtir o show. Alguns segundos depois, um grupo de seguranças da empresa Patrimonial (cujo dono já foi candidato a vereador pelo PMDB e também é apoiadora do adversário), deu um choque no Luís Henrique que tinha acabado de abaixar as mãos.

Ele virou e perguntou o que estava acontecendo e recebeu como resposta um questionamento: o que eles, PRETOS, estavam fazendo na área VIP? Ele mostrou que estava com a pulseirinha e levou novo choque com um questionamento de onde eles haviam roubado aquela pulseirinha. Outros seguranças se juntaram, num total de 8, e começaram a empurrar e bater nos meninos. Eles levantaram a mão novamente em sinal de rendição e disseram que não representavam perigo e que poderiam, mas não iriam oferecer resistência. Um segurança imediatamente deu uma gravata no Luahn, que é asmático. O Luís Henrique pediu para soltarem o Luahn, explicou que ele tinha asma e que era perigoso dar choque nele. Um dos seguranças imediatamente desferiu uma cacetada e choques, empurrando os meninos escada abaixo. Eles foram escorraçados da área VIP sob xingamentos de urubus, macacos, pretos safados e outras infinidades de ofensas.

Ao perceber a movimentação, Pedro, que é integrante da Caravana e é natural de São Miguel do Oeste, mas vive há quase 10 anos no DF, correu para socorrer os meninos, mas nesse momento o Luahn já estava desmaiado no chão.
Ele foi até uns guardas da Polícia Militar que estavam no local, explicando o acontecido e exigindo que eles o acompanhassem para identificar os agressores. Os policiais se recusaram e quando o Pedro os chamou de preconceituosos e provincianos, ouviu voz de prisão por desacato à autoridade. Um outro policial veio intermediar a conversa e disse que se responsabilizaria pelo Pedro, orientando-o a abrir um boletim de ocorrência.

Eles então aguardaram a chegada dos bombeiros para prestar os primeiros socorros ao Luahn, que ainda estava desmaiado. Depois seguiram para a Delegacia para prestar o depoimento e não foi possível fazer o exame de corpo de delito, que só pode ser realizado na segunda-feira (24).

Em nenhum momento houve revide, nem contra-ataque da parte dos meninos. Luís Henrique trabalha em uma ONG que presta assistência a jovens em conflito com a lei e é lutador de Muay Thai há 15 anos, federado, poderia ter revidado, mas não revidou. O que aconteceu foi um massacre, pelo simples motivo de os negros estarem na área VIP de um show, na área reservada para as elites. No Boletim de ocorrência ficou registrado como Injúria e Lesão Corporal Dolosa.

Juridicamente a injúria é crime contra a honra, que consiste em ofender alguém, proferindo contra a vítima palavras que atentam contra sua dignidade. A Lei entendeu que quando esta ofensa estiver relacionada com elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou origem, o crime de injúria merece uma punição mais grave, tornando-se qualificado, sendo prevista uma pena de um a três anos de reclusão. Mas o crime de injúria qualificada pelo preconceito é diferente do delito de racismo, previsto na Lei 7.716/89. Enquanto na injúria preconceito é atribuída qualidade negativa à vítima, no racismo a vítima é segregada do convívio social em razão de sua cor, raça etc. O crime de injúria preconceito é prescritível, afiançável e de ação penal pública condicionada (Lei 12.033/09). Já o racismo é imprescritível, inafiançável e de ação penal pública incondicionada.

O que aconteceu não foi injúria apenas, como pode ser evidenciado na diferenciação entre os crimes de Injúria Racial e Racismo. Apesar de todos os xingamentos recebidos, os meninos foram vítimas de RACISMO. Foram agredidos verbal, moral e fisicamente. Eles foram privados do direito de ir e vir. Foram vítimas de um crime que ronda o Brasil e se evidenciou nos golpes desferidos por causa da cor da pele em uma noite que era para ser de festa. E se o asmático tivesse tido um colapso com os choques, teria sido apenas mais um negro para as estatísticas. Já estávamos identificados na cidade e acreditamos que foi crime de racismo sim, mas também teve como agravante sermos do Partido dos Trabalhadores.

Sabemos que há no Brasil o genocídio da Juventude negra e estudos divulgados pela ONU atestam que 70% dos jovens com idade entre 15 e 24 anos, vítimas de homicídio no Brasil, são jovens negros. São mortes evitáveis, embasadas no preconceito, no racismo. Mortes que viram estatísticas e que na maioria das vezes não vão para o jornal. O número não dói quando não é um amigo, um companheiro que você conhece. É um desconhecido que cai no senso comum de que é um bandido e “bandido bom é bandido morto”.

“A ideologia racista inculcada nas pessoas e nas instituições leva à reprodução, na sucessão das gerações e ao longo do ciclo da vida individual, do confinamento dos negros aos escalões inferiores da estrutura social, por intermédio de discriminação de ordens distintas, explícitas, veladas ou institucionais, que são acumuladas em desvantagens” (Rafael Guerreiro, IPEA). Que nada mais é do que a institucionalização da violência racial há séculos.

O racismo no Brasil é camuflado e hipócrita, está escondido nas piadas, nas seleções para empregos, no vocabulário (denegrir), nas brincadeiras (nega maluca), nos doces (negrinho ou negão, como é conhecido o brigadeiro aqui no Sul do país). A maioria das coisas pejorativas são negras, seja a lista negra, a ovelha negra, o humor negro.
A Caravana ainda está muito abalada com tudo o que aconteceu. Nunca tínhamos vivenciado tão de perto uma situação de terror como esta, violência gratuita e banal.

Diante disso tudo, declaramos todo nosso repúdio à empresa Patrimonial, que fez a segurança do show e cometeu esta barbárie. Por isso declaramos que daremos continuidade ao processo criminal e esta empresa irá se responsabilizar pelo ato dos seus funcionários, tão despreparados. Não adianta mais denunciar o racismo apenas nas letras das músicas, nos poemas, nos grafites, nas redes sociais. Os racistas têm que responder criminalmente por seus atos.

Iara Cordeiro
Direção Nacional da Juventude do PT”

Fonte: Escrevinhador

Jovens negros são vítimas da violência no Brasil

EDIÇÃO WEB – 29.09.12: O programa Bom Dia, Ministro da última semana teve como convidados os ministros Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência da República, e Luiza Bairros, da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial. Entre os destaques discutidos com âncoras de rádio de todo o Brasil, o lançamento do Plano de Prevenção à Violência contra a Juventude Negra e a violência que tira a vida de jovens negros em todo o país.
 

O Rastro do Quilombola

Torquatiana!


(ou o rastro do quilombola)

Nao mostre medo na corda bamba, meu chapa!
A um passo fica a eternidade

e tudo pode se dessolver como um sonrisal
Se puder filmar, filme e se apresente
Tomar o espaco, ocupar as telas palcos as cidades e tvs
Tornar tudo Popular, como manda o figurino

Nao confie em nenhum guarda
A guerrilha está nas palmas das maos
Nao tenha medo, tire as máscaras
Nenhum político terá tanta grandeza
de uma estrela ou de uma crianca na rua
O terror sao eles e nao nós

O anjo exterminador sentará
à sua esquerda, nenhuma religiao nisso
á direita o espanto dos bebados
Se me perguntarem novamente
zumbi, ouviram? Zumbi e
estaremos conversados

Dandara adormeceu serena
Debaixo de minha língua
nenhum espanto nisso
Só Quilombos e Luta
o Amor Armado
e os Últimos dias de Pauperia

Nao mostre medo na corda bamba,
meu chapa!
O terreiro ferve
Uma colonia ainda nos carrega nas costas
. Sangrá-la no meio do coracao!

(esse poema foi inspirado em Torquato Neto e na foto aí embaixo).

Ras Adauto

Foto: avenidadalibertacao

(esse poema foi inspirado em Torquato Neto e na foto aí em cima).

Ras Adauto

Foto: avenidadalibertacao

“Uma Colonia ainda nos carrega nas costas”

Africa nascita di un continente_parte I_09_La guerra del Biafra parte 2

La guerra del Biafra, ovvero la guerra civile nigeriana combattuta tra il 1967 e il 1970, è stata una delle guerre più sanguinose dell’Africa post-coloniale. Gilbert Bovay, a guerra ancora in corso, ne racconta le cause e, soprattutto, illustra le responsabilità europee per quello che sta succedendo. Dal documentario “Africa: nascita di un continente” di Gilbert Bovay (1968)
 

Afinal: Monteiro Lobato era Racista! Ou nao era?

Em 1938. o escritor Monteiro Lobato, incensado e sacralizado no Brasil como o nosso maior escritor infanto-juvenil, voltou de uma viagem aos Estados Unidos. Na época, adepto apaixonado pelas teorias racistas eugenistas, que sustentou o Nazismo de Hitler, encantado com a Klu Klux Klan norte americana escreveu o seguinte para o cientista eugenico da Bahia Arthur Neiva:

“Um dia se fará justiça ao Ku-Klux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva”.

Esse trecho de carta é só um dos exemplos nas séries de cartas exaltando a Eugenia e a esterilizacao da subraca brasileira, entendendo-se aí negros e mulatos. E era orientado pelas teses do maior propagandista da Teoria da Eugenia, o paulista Renato Kehl

Em um dos seus famosos livros, “As Cacadas de Pedrinho”, que se passa no Sítio do Picapau Amarelo, Lobato descreve a senhora preta da cozinha, a Tia Anastácia, como “macaca preta” numa cena do livro.

Crédito da imagem: Reprodução do livro As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato

Uma série de denúncias foram levantadas no Brasil sobre isso nos últimos tempos e a polemica está grossa. Pois Monteiro Lobato é um ícone intocável para a grande maioria da intelectualidade brasileira. Mas porque nao colocar em chegue as suas idéias absurdas e simpáticas ao nazismo no Brasil?

Os livros infanto-juvenis de Monteiro Lobato atravessaram toda a minha infancia e a infancia de toda uma geracao no país de criancas e jovens em idade escolar. Principalmente as histórias da Boneca falante Emília e os moradores do Sítio do Picapau Amarelo.

É uma pena esses acontecimentos. Mas nao se pode deixar passar, como sempre passam no Brasil as ofensas e o racismo latente no nosso país. Tem que se colocar mesmo em cheque tudo isso.

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Ainda o caso do escritor Monteiro Lobato, simpatizante da KKK e das Teorias Eugenistas: mas com um exemplo na Alemanha recentemente com o ícone Günter Grass!
Edition Kunsthaus Lübeck

Günter Grass é um intelectual, romancista, dramaturgo, poeta e artista plástico alemão. Considerado uma das maiores sumidades das artes e da literatura na Alemanha e na Europa. Sempre foi visto como um dos articuladores do pensamento crítico socialista, democrata, anti-nazista e sua obra literária permitiu a realizacoes de vários filmes políticos de importancia da cinematografia alema. O mais conhecido talvez seja “O Tambor”, Die Blechtrommel, que conta a história de um menino chamado Oskar, que para de crescer de repente, e atravessa toda a segunda guerra mundial perturbando os nazistas com o seu tambor e sua histeria repentina.

De repente uma Bomba caiu no meio das intelectualidades, das resistencias políticas de esquerdas e no meio artístico: Günter Grass, o ilibado herói da grande cultura alema, pertenceu na juventude à Tropa de Elite do Exército nazista alemao – a Waffen-SS.

Abaixo um texto do Wikipedia que fala sobre esse incomoda revelacao, que abalou muita gente, instituicoes, inclusive a comunidade judaica, que o tinha como um grande aliado:

“Günter Grass e sua participação na Waffen-SS.

Recentemente o mundo se chocou com a declaração de Grass no seu novo livro “Descascando a cebola”, de caráter autobiográfico, de sua participação como membro das Waffen-SS (tropa de elite do exército do Reich). Esta revelação fez muitos escritores e jornalistas posicionarem-se a respeito.Alguns desses posicionamentos foram publicados no jornal “O Estado de São Paulo”, no dia 27 de agosto de 2006. Os argumentos dividiram-se basicamente em dois, de um lado estavam os que declaravam que isso não invalidava o valor de seus romances, e que é preciso separar o escritor de sua obra, além de considerarem a pouquíssima idade de Grass quando atuou na Waffen . Do outro, questionaram a demora de Günter em revelar esta participação.

O escritor português José Saramago declarou: “Nunca separei o escritor da pessoa que o escritor é. A responsabilidade de um é a responsabilidade de outro.”. Já o editor brasileiro Luiz Schwarcz comentou: “Não se pode confundir obra e autor.”. John Berger, escritor, em um texto originalmente publicado pelo The Guardian, questiona o julgamento a Günter Grass: “A ética determina escolhas e ações e sugere prioridades difíceis. Nada tem a ver com o julgamento das ações dos outros. Tais julgamentos são prerrogativa dos moralistas. Na ética existe humildade; os moralistas acham que estão certos.” Em uma entrevista concedida a Der Spiegel, Grass comenta a repercussão que sua atuação na tropa nazista teve e explica-se diante de alguns questionamentos.

Ao ser indagado quanto a demora para a revelação, o escritor alemão declarou: “Acreditava que minha obra como escritor e cidadão era suficiente.”, e acrescenta que sempre sentiu vontade de escrever sobre suas experiências, mas num contexto adequado.

O entrevistador do Der Spiegel, Ulrich Wickert faz ainda uma relação com um trecho do livro autobiográfico Descascando a Cebola e o romance O Tambor, buscando no romance um sentimento já revelador desta culpa de atos passados e sua justificação pela pouca idade: “No instante em que invoco o garoto de treze anos que eu era na época, em que o tomo como incumbência, e me sinto tentado a julga-lo, ele me escapa. Ele não quer ser avaliado ou julgado. Foge para o colo da mãe e diz: ‘Eu era apenas um garoto, apenas um garoto.’ .” (Descascando a Cebola).

” Não sou responsável pelas coisas que fiz quando criança.” (Personagem Oskar em O Tambor.).

Em um outro romance ainda podemos verificar o aparecimento de um possível traço autobiográfico e sua relação com este sentimento de culpa, trata-se de Maus presságios. É revelado sobre os protagonistas Alexandre e Alexandra: “Não era necessário remexer no passado, porque as poucas aventuras à margem traziam lembranças inexatas ou mal ordenadas. E o fato de que ele, aos quatorze anos e meio, tivesse sido soldado e ela, aos dezessete, membro entusiasta da organização das juventudes comunistas era perdoado aos dois, mutuamente, como defeitos congênitos de sua geração; não era preciso descer a nenhum abismo; até porque ele, nos momentos em que duvidava de si próprio, dizia que tinha de lutar continuamente contra o jovem hitlerista que tinha dentro de si…” Estaria Grass, ao longo de todos os seus romances, já nos dando pistas de sua vida passada? Seriam todos os seus romances um desabafo particular?”

Depois desse episódio caiu bastante o conceito unamine que Günter Grass tinha na Alemanha anteriormente. E recentemente, em abril desse ano, o escritor foi proibido de entrar em Israel. O autor de “O Tambor” foi declarado ‘persona non grata’, conforme anúncio feito em Telaviv, três dias após publicar um poema em que acusa Israel de ser uma ameaça à paz mundial.

E qual seria a semelhanca do escritor alemao e o escritor brasileiro Monteiro Lobato?

Como disse uma amiga: “poderíamos acordar sem esses pesadelos que estao se revelando a cada dia!”

Ras Adauto

Die Blechtrommel The Tin Drum Trailer , von Volker Schlöndorff

(Trailer do filme O Tambor, de Volker Schlöndorff, baseado no romcance do mesmo nome de Günter Grass)

 

“Um Apartheid na História da Literatura Brasileira”

Hoje fiquei refletindo sobre um apartheid na possivel história oficial da literatura brasileira.

É inconcebível, que hoje em pleno século XXI, os ditos estudiosos –historiadores da nossa literatura nao conseguem incluir os/as poetas e escritores/as afro brasileros/as na pauta histórica da cultura da escrita artística do país. É como se para essa gente nao existisse uma literatura de expressao afro no espectro das letras brasileiras.

“Suportam” um Cruz e Souza, um Lima Barreto, um Solano Trindade, que na minha visao nao recebem o tratamento de honra que merecem e sao secundárias, apesar da imensa obra desses autores.

Artistas como Cutí, Ele Semog, Conceicao Evaristo, Oubí, Carlos Limeira, Oswaldo de Camargo, um Abdias do Nscimento, por exemplo, sao totalmente desconhecidos das páginas dessa história ofical da litratura brasileira. Assim como desconhecem solenemente a famosa “Coleção Cadernos Negros”, publicação do Quilombhoje, que há mais de 20 anos revela autores e poetas afros e seus trabalhos.

Uma das grandes injusticadas e um bem emblemático exemplo desse apartheid literário é a figura da grande escritora Carolina Maria de Jesus, autora da obra definitiva “Quarto de Despejo”. Saudada entusiasticamente no tempo do lancamento de seu livro pela escritora e visionária Clarisse Lispector, a favelada Carolina Maria caiu no ostracismo e no silencio cruel do limbo que o racismo à la brasileiro forja para apagar a nossa presenca. A autora do celebrado “Quarto de Despejo”, Carolina Maria de Jesus, traduzida em 13 países, vendeu 1 milhão de exemplares e morreu pobre.

Mesmo o grande Lima Barreto, escritor e jornalista de ponta nos inícios do século passado e com uma obra marcante e fenomenal , foi rejeitado cínicamente a sua possível entrada na Academia Brasileira de Letras, cujo patrono é Machado de Assis, que os historiadores ainda insistem em pintá-lo de cal branco.

O ano passado o poeta e escritor Cutí entrou em uma polemica com o poeta Ferreira Gullar – conhecido principalmente pelo seu livro “Poema Sujo” – quando este senhor teve a discrepancia de afirmar num orgao de imprensa que nao existia “literatura negra”. Que isso era uma falácia. Recebeu o cacete que merecia, mas nao se retratou e seguiu em frente como sempre fazem quando atacam os afrodescendentes, como ainda estivessem nos tempos colonais das escravaturas. Esse mesmo Sr. Ferreira Gullar já se pronunciou várias vezes também contra as cotas que permitem a entrada de jovens negros e indígenas nas universidades públicas brasileiras. Por aí já vemos os naipes que regem essa elite intelectual e literária brasileira.

Esse “apagamento” cruel também está se refletindo na chamada Literatura Indígena. Autores e autoras como Daniel Mundukuru, Eliane Potiguara, Juvenal Payaya, o guarani Olivio Jecupé, Roní Wasiry Guará, só para citarmos alguns mais presentes e com obras solidificadas, sao assuntos da Antropologia, mas nao da História da Literatura como deveriam.

É por isso que devemos fazer uma revisao de baixo para cima na chamada história da literatura brasileira e que possa apartir de agora refletir verdadeiramente a imensa riqueza diversificada das artes literárias do Brasil. Indios e Afros nao sao mais objetos, assuntos ou temas para a escrituras de autores brancos, ou que se acham brancos, como foi até agora. Mas protagonistas e artistas competentes que possuem obras relevantes, nao folclóricas, como alguns antropólogos desavisados tentam coloca-los, e que merecem fazer parte do panteon onde estao entronizados uma Clarice Lispector, um Oswald de Andrade, uma Cecília Meireles, um Manuel Bandeira, um Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Castro Alves. José de Alencar e vai por aí a fora.

Precisamos romper e destruir esse apartheid e silencio que acorrentam a nossa Literatura e a História dessa Literatura no país.

Na foto arquivo, Clarice Lispector e Carolina Maria de Jesus no dia do lancamento da livro “Quarto de Despejo”, em 1960. Duas escritoras brasileiras: a primeira permanece, a segunda foi apagada criminosamente da História da Literatura Brasileira.

Ras Adauto, poeta

CULTNE – Literatura Negra – Cuti

Com imagens e edição de Filó Filho, o Cultne esteve presente na X Feira Preta realizada no último dia 18 de dezembro de 2011. Durante o evento foi lançado o livro de contos e poesias Cadernos Negros Volume 34, que contou com vários autores pertecentes ao Quilombhoje. Na oportunidade, o poeta e escritor Cuti falou ao Cultne sobre a Literatura Negra.Em 1978 surgiu o primeiro volume da série CADERNOS NEGROS, contendo oito poetas que dividiam os custos do livro, publicado em formato de bolso com 52 páginas. A publicação, vendida principalmente em um grande lançamento, circulou posteriormente de mão em mão, sendo distribuída para poucas livrarias, mas obteve um expressivo retorno dos que tiveram acesso a ela.

Desde então, e ininterruptamente, foram lançados outros volumes – um por ano – alternando poemas e contos de estilos diversos. A distribuição aperfeiçoou-se, procurando chegar a um público mais amplo e diversificado do que aquele atingido pelos primeiros volumes. Escritores de vários Estados do Brasil vêm publicando nos Cadernos. É preciso assinalar que não existem outras antologias publicadas regularmente com textos de autores afro-brasileiros, em grande parte devido às dificuldades financeiras inerentes às publicações deste tipo. Sendo assim, os Cadernos têm sido um importante veículo para dar visibilidade à literatura negra.

Cuti (pseudônimo de Luiz Silva) formado em Letras pela USP, Mestre em Teoria Literária e Doutor em Literatura Brasileira, pela Unicamp, publicou: Poemas da carapinha. (1978); Batuque de tocaia. (poemas, 1982); Suspensão.(teatro,1983); Flash crioulo sobre o sangue e o sonho.(poemas, 1987); Quizila. (contos, 1987); A pelada peluda no Largo da Bola. São Paulo. (novela juvenil, 1988); Dois nós na noite e outras peças de teatro negro-brasileiro.(1991); Negros em contos.(1996); Sanga.. (poemas, 2002). E em co-autoria: Terramara. (com Arnaldo Xavier e Miriam Alves) – teatro, 1988; …E disse o velho militante José Correia Leite. (memórias, 1992); Quilombo de palavras. (CD — poemas, 1997).

“A produção literária de Cuti procura romper com a versão oficial encenada pelo discurso pedagógico da nação — que inibe a presença da diferença — bem como, propor-se como um fazer literário onde a presença da coletividade negra se mostra dinâmica e atuante.” (Rosane de Almeida Pires)

 

O grande cineasta Zózimo Bulbul completa 75 anos hoje!

O grande cineasta, ator e ativista Zózimo Bulbul completa hoje, 21 de setembro, 75 anos de idade. Batuque e cinema hoje no terreiro! Axé, Zozó!!!!

“Zózimo Bulbul dedicou a carreira ao resgate do que chama de africanidade através do cinema c com os filmes em que atuou e dirigiu, como em Alma no Olho, Terra em Transe (de Glauber Rocha) e As Filhas do Vento (de Joel Zito Araújo). Foi o primeiro protagonista negro de uma novela brasileira e manequim de uma grife de renome.

Há cinco anos criou o Centro Afro Carioca de Cinema, local destinado a exibir filmes de diretores africanos e afro-brasileiros, além de ser um espaço de encontro e reflexões sobre a arte do cinema. Para 2012 serão abertas oficinas.”
Documentário “Aniceto do Império em… dia de alforria… ?”
Roteiro e Direção: Zózimo Bulbul. Ano: 1981

Zózimo Bulbul (1/3) – 3a1

O programa 3a1 entrevista o ator, diretor e roteirista Zózimo Bulbul, um dos ícones dos anos 60 por suas interpretações na televisão e no cinema.Na TV, Zózimo foi o primeiro protagonista negro de uma novela brasileira, fazendo par romântico com Leila Diniz em “Vidas em Conflito”, exibida pela TV Excelsior. No cinema, foi um dos principais atores dos filmes produzidos no movimento do Cinema Novo. Além de ator, realizou trabalhos como diretor e roteirista. Seu mais famoso filme como diretor foi “Abolição” (1988), que marcou o centenário da Abolição da Escravatura no Brasil.Zózimo fala de sua trajetória na carreira audiovisual e de como tem enfrentado o preconceito ao longo dessas décadas. Participam do debate a jornalista Renata Moreira Lima e o cineasta Joel Zito Araújo.A apresentação do programa 3 a 1 é do jornalista Luiz Carlos Azedo.
 

“As cidades brasileiras sempre foram ambientes vetados aos indígenas”, declara a antropóloga Lúcia Helena Rangel

“O índio nunca tem um lugar”, afirma a antropóloga – Foto: Reprodução

Em entrevista ao “Brasil de Fato”, a antropóloga Lúcia Helena Rangel faz uma radiografia precisa sobre a situacao crítica das nacoes indígenas no Brasil – Ras Adauto

”Uma hora ele é índio demais e atrapalha, outra hora ele é índio de menos, e não têm direitos”

“As cidades brasileiras sempre foram ambientes vetados aos indígenas”, declara a antropóloga Lúcia Helena Rangel

24/08/2012

“A cada ano voltamos a falar dos mesmos problemas”, diz a antropóloga Lúcia Helena Rangel, ao comentar os dados do Relatório de Violência 2011 contra as comunidades indígenas. Segundo ela, as situações de violência e descaso com os povos indígenas são recorrentes e se manifestam não só através dos conflitos territoriais, mas também em casos de racismo e na tentativa de suprimir os direitos das comunidades assegurados na Constituição Federal. “Estamos vendo ações cada vez mais fortes contra o direito às terras dos povos indígenas. A PEC 215 e a portaria 303 da AGU são exemplos disso. A cada dia aparece uma nova portaria ou um novo projeto de lei querendo modificar o artigo 231 da Constituição, ou modificar a aplicação dos direitos”, assinala em entrevista concedida à IHU On-Line por telefone.

De acordo com a antropóloga, como as mudanças propostas contra os direitos indígenas sempre “esbarram no princípio constitucional”, surge um “movimento no âmbito do Legislativo para modificar o princípio constitucional”. Para ela, as elites brasileiras não querem reconhecer os direitos indígenas e criam indisposições entre a população e as comunidades, gerando um discurso racista, especialmente diante dos indígenas que vivem nas cidades. “O Estado não demarca as terras e não quer assumir a população que vive nas cidades. Quem vai para a cidade não vai de modo forçado, obviamente, mas quando analisamos a situação das terras – no Sul, no Sudeste e no Nordeste –, observamos que a quantidade de terras demarcadas não suporta a população indígena dessas regiões”, aponta. E dispara: “Num país mestiço como o nosso, onde todo mundo é misturado, os índios não podem ser misturados. Uma hora ele é índio demais e atrapalha, outra hora ele é índio de menos, e não têm direitos. Então, o índio nunca tem um lugar”.

Lucia Helena Rangel é doutora em Antropologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP com a tese Os Jamamadi e as armadilhas do tempo histórico. É professora do Departamento de Antropologia da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP. Também é assessora do Conselho Indigenista Missionário – Cimi (Regional Amazônia Ocidental) e do Cimi Nacional.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são os dados mais alarmantes do Relatório de Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil? Comparando com os relatórios anteriores, o que destaca?

A antropóloga Lúcia Helena Rangel no lançamento do relatório de 2010Foto: Renato Araújo/ABr

Lucia Helena Vitalli Rangel – É difícil mencionar o que é mais alarmante, porque algumas situações se repetem a cada ano, com variações. Assim, em determinados momentos, o desmatamento chama mais atenção, em outros, a saúde etc. No ano de 2011, registramos um quadro grave, que já tinha sido destacado em anos anteriores e que diz respeito à situação da saúde dos povos do Vale do Javari, no estado do Amazonas. O Vale do Javari é uma área muito grande, demarcada, e que abriga diversos povos, sendo que muitos deles possuem comunidades isoladas no meio do mato, com os marubos, corubos, os matis, os canamari. Entretanto, as populações que vivem na beira dos rios estão sofrendo de verdadeiras epidemias de malária, de hepatite e das doenças aéreas: gripes, tuberculose, pneumonia. Nessas comunidades, a mortalidade infantil é muito alta. As lideranças indígenas relatam que nos últimos dez anos houve 300 mortes. Não temos como saber, de fato, qual é o tamanho dessas populações, mas vamos supor que seja algo em torno de três a quatro mil pessoas. Nesse caso, 300 mortes em 10 anos é muito.

Outro caso grave, identificado através do relatório, é a situação do povo guarani kaiowá do Mato Grosso do Sul, onde há uma taxa de homicídios de cem mortos por cem mil pessoas. Essa taxa é maior do que a do Iraque, e quatro vezes maior do que a taxa nacional. O Conselho Indigenista Missionário – Cimi já denunciou os casos de genocídio, e essas denúncias já chegaram à ONU, a organismos internacionais, e várias delegações já foram ao Mato Grosso do Sul para constatar tal situação. Entretanto, não se toma nenhuma providência. Outro problema muito complicado é o desmatamento. Este ano destacamos violações ao patrimônio indígena, depredação, retirada ilegal de recursos naturais, incêndios criminosos etc.

Comparando os dados deste relatório com os relatórios anteriores, não temos como dizer se a situação dos indígenas melhorou ou piorou. Às vezes piora, às vezes melhora, mas isso não significa nenhuma tendência nem de melhorar, nem de piorar. A cada ano voltamos a falar dos mesmos problemas.

Qual a situação dos xavantes no Mato Grosso? Os conflitos também estão atrelados à disputa pela terra?

No caso dos xavantes, a situação mais complicada é a da terra indígena Marãiwatsèdè. Essa terra está foi invadida por fazendeiros e está em litígio há muitos anos. As comunidades não se conformaram com as ocupações indevidas e tentam reaver o seu território na integralidade. Além de terem acesso a pouca terra, eles são pressionados pelo desmatamento oriundo da pecuária, do agronegócio, da soja, das queimadas, do envenenamento de rios etc. Além disso, a mortalidade infantil entre os xavantes foi alarmante nos anos de 2009 e 2010.

Há uma relutância da Funai diante destes conflitos, porque o órgão cria projetos, faz levantamentos, identifica as terras que devem ser demarcadas, mas não conclui tais projetos, e mesmo quando há conclusão, quando os relatórios são publicados, não há continuidade nas ações. Tanto no Rio Grande do Sul como em Santa Catarina há estradas em que se veem placas indicando “Cuidado, indígenas na estrada”, como se eles fossem animais selvagens.

Quais são as etnias que mais sofrem por causa da violência e dos conflitos de terra?

No extremo sul da Bahia, o povo pataxó tem sofrido há décadas pressões e violências brutais, tais como assassinatos, emboscadas em estradas, tiroteios, incêndios de escolas, de casas, de roçados por parte de fazendeiros que não querem admitir que as terras dos pataxós e dos tupinambás, que vivem nessa região, sejam demarcadas. Eles afirmam que o governo do estado da Bahia concedeu as terras para eles e, portanto, têm mais direitos do que os índios. Entretanto, ninguém leva em conta que o próprio governo da Bahia foi o primeiro a violar os direitos indígenas ao conceder as terras a um fazendeiro qualquer, considerando que muitos deles nem eram daquela região.

Outras etnias vítimas da violência são os guarani e os kaingang, no Sul; os guarani kaiowá, no Mato Grosso do Sul, os guajajara e os awá-guajá, no Maranhão; os turucá, em Pernambuco e no Norte da Bahia. Outra situação interessante de apontar é o caso de Roraima, da terra indígena Raposa Serra do Sol, onde vivem os povos uapixana, macuxi, e outros. Ali havia registros de violência brutal durante muitos anos. A luta foi longa, mas finalmente em 2009, quando o Supremo Tribunal Federal – STF corroborou a homologação que já havia sido feita pelo então presidente da República, concedendo aos indígenas a terra, os relatos de violência, em 2011, praticamente sumiram dos relatórios. Isso prova que a situação dos indígenas melhora se as terras forem demarcadas.

Por mais que haja posições contrárias de alguns senadores e deputados, que dizem que os índios de Roraima vivem nas cidades no meio do lixão, devemos lembrar que essa situação é muito anterior à demarcação. O que nós comparamos não é a situação dos indígenas que vivem na cidade de Boa Vista, mas a situação de violência dentro da terra indígena Raposa Serra do Sol.

A disputa pela terra é a principal razão pelos conflitos entre indígenas e não índios? Que outros problemas são gerados em decorrência da não demarcação das terras?

O pano de fundo é a questão da terra. Entretanto, não podemos reduzir tudo a essa questão. Mas inúmeros problemas vêm daí, porque quando uma terra não está reconhecida, os índios não têm acesso à assistência de saúde, não recebem programas de educação escolar, não recebem insumos agrícolas, projetos de alimentação etc. Então, trata-se de uma questão fundiária, de disputa pelas terras indígenas e de não reconhecimento dos direitos indígenas às suas terras. Os indígenas têm um modo de vida baseado na relação com a terra, com o território, com a natureza. E essa relação é a base da vida deles.

No Mato Grosso do Sul, cerca de dez reservas indígenas de guarani kaiowá foram demarcadas. A Funai levou todas essas comunidades para dentro dessas terras, e elas viraram um barril de pólvora por causa da superlotação. Há conflitos internos entre comunidades que não se entendem; há casos de alcoolismo, falta de perspectiva etc. Além disso, eles não conseguem trabalhar a terra porque não tem espaço para isso. Então há consequências graves por causa da falta de demarcação das terras.

Como vê o projeto desenvolvimentista brasileiro, que propõe a expansão do parque energético em áreas ocupadas por comunidades indígenas e tradicionais, como o caso do Xingu e do Tapajós? Como ficam os povos indígenas diante desses projetos?

Cada rio da bacia amazônica tem um tipo de potencial hidrelétrico, e são todos discutíveis, porque alguns rios têm um potencial maior, outros, menor. O quanto isso vai beneficiar a produção econômica, as cidades brasileiras, a população que vive nas cidades, também é uma coisa a ser discutida, porque os mais prejudicados com essas construções, com esses empreendimentos, são as populações ribeirinhas e as populações indígenas.

No rio Madeira, as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio estão sendo feitas em uma região onde há comunidades indígenas isoladas, que ainda não fizeram um contato regular com os agentes do Estado brasileiro e a sociedade. O que vai acontecer com essa gente, nós não sabemos. Por onde eles vão escapar? Eles vão morrer ou não? Vão pegar epidemia ou não? Não há como saber.

Hidrelétricas

Em Altamira, onde está sendo construída a hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, vive uma população indígena que já tem contato regular com a sociedade. Ocorre que essa população da região da Volta Grande já foi deslocada em momentos anteriores. Então, trata-se de uma população que tem essa memória, que sabe o quanto custa um empreendimento desses. Quando a Transamazônica foi construída, essa população não foi ouvida, os impactos não foram avaliados corretamente, e o próprio Ibama reconhece isso.

Diante de empreendimentos como Belo Monte, os empreendedores e os representantes do Estado dizem para a população de Altamira o seguinte: “Os indígenas não querem que vocês tenham acesso à energia”. Então cria um conflito que é insuportável.

No Tapajós, acontece a mesma coisa. O complexo hidrelétrico de Tapajós vai alagar terras indígenas. Prioritariamente, quase todas as hidrelétricas que foram construídas nesse plano de desenvolvimento afetaram os povos indígenas, a exemplo de Itaipu, Tucuruí entre outras.

Por causa da transposição do rio São Francisco, por exemplo, o povo Truká foi afetado pela transposição do rio, porque o canal dividiu a terra deles ao meio, e usou parte do território para instalar canteiros de obras. Os próprios indígenas denunciam e reclamam das consequências, como o aumento do alcoolismo, da prostituição, da falta de emprego e da diminuição das terras agriculturáveis. Nesse caso do rio São Francisco, transpõe-se o rio para irrigar terras, mas quem está na beira do canal perde área cultivável. Quer dizer, trata-se de um contrassenso da obra ou de uma falta de respeito pelos indígenas que viviam ali. Por que o canal tem que cortar a terra ao meio?

 

“o artigo 231 da Constituição reconhece o direito dos indígenas às suas terras”, afirma a antropóloga – Foto: Reprodução

Os índios têm clareza dessa situação, das implicações das obras? No caso de Belo Monte, por exemplo, algumas etnias estão divididas. Eles acabam sendo cooptados pelo Estado?

É sempre assim. Têm aqueles que, em troca de algum dinheiro ou algum benefício, trabalham para que a obra se realize. A consequência disso, depois da obra pronta, é um conflito interno muito grande, porque aqueles que se beneficiaram não dividem o benefício com toda a comunidade.

Um exemplo são os indígenas que vivem próximo ao rio Tocantins. O povo xerente foi afetado pela hidrelétrica do Lajeado, que teve a barragem construída no “pé” da terra deles. À época, algumas lideranças se apressaram e quiseram convencer todo mundo de que eles deveriam aceitar o dinheiro da mitigação do impacto – e a mitigação do impacto nessas obras acaba sendo sempre o dinheiro. Então, quando eles aceitam, recebem um valor monetário determinado, para implementarem projetos dentro da área. Mas com esse valor, criam uma associação, constroem uma sede na cidade, compram veículos (tanto ambulâncias como camionetes e caminhões), computadores, telefones. Posteriormente, tudo isso gera uma fase de insatisfação e reclamações. Aumentam os conflitos entre as comunidades que vivem dentro da mesma área, porque umas ganharam mais dinheiro, outras ganharam menos benefícios. Claro, não cabe à empresa que vai construir a hidrelétrica resolver esse problema, mas a atuação dos agentes do Estado podia levar em conta essas coisas, porque elas são conhecidas.

Agora, quando alguém oferece dinheiro para as comunidades, todo mundo fica enlouquecido pelo dinheiro. Então, esse é um problema muito sério e muito complicado. Quem sou eu, por exemplo, uma professora e antropóloga, para dizer a um indígena que, se ele aceitar esse dinheiro, posteriormente enfrentará muitos problemas? Trata-se de outro processo de conscientização, de análise, que demandaria um esforço diferente no tratamento dessas questões com os indígenas. A pressa em propor essas formas de mitigação é que faz com que alguns indígenas também se sintam atraídos e aceitem, de “mão beijada”, coisas que trarão consequências graves para a sua comunidade.

De acordo com os dados do Cimi, a homologação das terras indígenas diminuiu drasticamente de 145 registros no governo Fernando Henrique Cardoso para 79 no governo Lula e apenas três no governo Dilma. Quais as razões dessa redução? O que essa mudança na política governamental sinaliza?

Cada governo enfrenta um tipo de pressão. Da gestão Lula para cá, o governo tem cedido demais às pressões dos fazendeiros, das empreiteiras, daqueles interessados ou nos grandes projetos, nas grandes obras ou no agronegócio. O governo faz alianças políticas e depois tem que dar a contrapartida. Isso é evidente, no caso do Mato Grosso do Sul, porque há uma pressão muito forte do governo estadual, dos empresários do agronegócio. Até o judiciário, no Mato Grosso do Sul, é contra os indígenas, sendo que existem leis, que há uma Constituição Federal. Mas ninguém respeita.

E ainda são publicadas a portaria 303 da AGU, a PEC 215…

Exatamente. Estamos vendo ações cada vez mais fortes contra o direito às terras dos povos indígenas. A PEC 215 e a portaria 303 da AGU são exemplos disso. A cada dia aparece uma nova portaria ou um novo projeto de lei querendo modificar o artigo 231 da Constituição, ou modificar a aplicação dos direitos.

Outro exemplo foram as discussões em torno da mudança do Código Florestal, que acabou sendo aprovado na Câmara Federal através dos piores princípios. Por exemplo, em 2010 as discussões das mudanças do Código Florestal desencadearam um verdadeiro vandalismo. No Mato Grosso, as terras indígenas foram afetadas pelo desmatamento de uma forma violenta. Segundo a Polícia Federal, cem terras indígenas foram afetadas, além de 20 unidades de conservação.

Como compreender tais portarias diante do artigo 231 da Constituição Federal?

A Constituição Federal é uma “salva guarda”, ela resguarda os direitos cidadãos. Então, o artigo 231 da Constituição reconhece o direito dos indígenas às suas terras, a ocupação originária etc. Portanto, o reconhecimento do direito é constitucional, e é o princípio mais importante. Agora, a aplicabilidade do direito não depende somente da Constituição Federal; há de ter uma regulamentação. No caso dos povos indígenas, a regulamentação acontece através do Estatuto do Índio. Depois de 1988, quando a Constituição foi promulgada, deu-se início à discussão de elaborar um novo Estatuto do Índio, porque o Estatuto que vigora até hoje é de 1970.

Que aspectos do Estatuto do Índio deveriam ser atualizados?

Teria de fazer um novo estatuto, porque o vigente foi baseado em outros princípios, como o princípio da integração do índio à comunhão nacional, o princípio de que as terras indígenas devem ser protegidas ou administradas pela Funai e o princípio de que, em nome da segurança nacional, as terras indígenas podem ser violadas. Entretanto, o direito Constitucional de 1988 modifica esse princípio, como modifica também o princípio da tutela. Então, há de ter um novo estatuto, porque o atual foi elaborado durante a ditadura militar.

Há mais de 20 anos uma nova proposta de Estatuto do Índio tramita no Congresso Nacional e na Câmara Federal. O novo texto nunca foi votado, porque primeiro os deputados querem votar a Lei da Mineração, a mudança do Código Florestal, para tirar os direitos indígenas, e depois fazer o Estatuto do Índio. Mas como as mudanças sempre esbarram no princípio constitucional, há outro movimento no âmbito do Legislativo, para modificar o princípio constitucional. Não há meio das nossas elites reconhecerem os direitos indígenas e, assim, começam a inventar coisas. Por exemplo, no Mato Grosso do Sul inventaram que os índios queriam 600 milhões de hectares, área maior do que o estado do Mato Grosso do Sul. Mas eles não querem 600 milhões de hectares; querem o pedaço que lhes cabem. Essa distorção fomenta a discórdia, criam uma indisposição entre a população local e os indígenas. Ações como essa geram racismo, preconceito. Parece que não há nem um pouco de vergonha em manifestar isso contra os indígenas.

Além disso, outros dizem que alguns índios não são mais índios, porque têm cabelo crespo, moram na cidade, são “misturados”, quer dizer, eles têm menos direitos do que os outros. Num país mestiço como o nosso, onde todo mundo é misturado, os índios não podem ser misturados. Uma hora ele é índio demais e atrapalha, outra hora ele é índio de menos e não tem direitos. Então, o índio nunca tem um lugar.

De acordo com os dados do censo, existem 305 etnias indígenas no país. Como estão os estudos atuais sobre essas culturas? Há conhecimento desta diversidade?

Para os antropólogos, essa diversidade é uma realidade, e como tal é considerada. Entretanto, nem os antropólogos possuem este número, porque só o IBGE consegue fazer um censo nacional e ter esse alcance. O que os pesquisadores conseguem nas universidades, nos seus laboratórios de pesquisa, é sistematizar os dados. Foi importante o IBGE publicar essa informação de 305 etnias. Não sei exatamente como é a definição de etnia do IBGE, mas são muito provavelmente relativas à autodenominação da comunidade ao falar o nome do povo. Supunha-se que fossem 280 etnias, mas o IBGE fala que é 305. É um dado mais preciso e importante.

O que os dados do censo revelam sobre os indígenas brasileiros? Algum dado lhe surpreendeu?

No censo do ano 2000, havia um dado da população autodeclarada indígena. Desses, 52% viviam em cidades e 48% viviam nas terras indígenas, em aldeias. Então, no censo de 2010, inverteu o número. A população indígena que vive na cidade está em volta de 47% e 48% e a população que vive em aldeia está em torno de 52% e 53%. O dado demonstra que a população indígena que vive em cidades é muito grande, e o Estado, através da Funai, reluta em reconhecer essas comunidades como sendo comunidades indígenas, porque não quer lhes atribuir direitos. Então, aqueles índios que vivem na cidade não são considerados indígenas. Portanto, estão excluídos do artigo 231. O Estado não demarca as terras e não quer assumir a população que vive nas cidades. Quem vai para a cidade não vai de modo forçado, obviamente. Quando, porém, analisamos a situação das terras – no Sul, no Sudeste e no Nordeste –, observamos que a quantidade de terras demarcadas não suporta a população indígena dessas regiões. Então, a migração é um recurso para as comunidades.

Além disso, as cidades brasileiras sempre foram ambientes vetados aos indígenas. Quando iam para as cidades, eles eram presos, escorraçados, expulsos. Quando iam ao médico, iam e voltavam para casa escoltados pela Funai. A Constituição, bem ou mal, é democrática, e nesse sentido abriu direitos que não estavam previstos, como a ampliação do direito de ir e vir, que é um direito civil do cidadão. Então, a conquista do ambiente humano também é uma conquista para os indígenas, que eles não têm mais que ficar escondidos nos fundos das fazendas, trabalhando quase como escravos, visto que não possuem terra e não têm lugar para onde ir. Então, há uma série de movimentos dessa população que vão configurando também novos perfis. Nesse sentido, os dados do IBGE são muito importantes para pensarmos essas questões e para aprofundarmos em nossas pesquisas.

Brasil de Fato

Todas as reportagens do Brasil de Fato podem ser reproduzidas por qualquer veículo de comunicação, desde que citada a fonte e mantida a íntegra do material.

 
 
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