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“Um Apartheid na História da Literatura Brasileira”

22 set

Hoje fiquei refletindo sobre um apartheid na possivel história oficial da literatura brasileira.

É inconcebível, que hoje em pleno século XXI, os ditos estudiosos –historiadores da nossa literatura nao conseguem incluir os/as poetas e escritores/as afro brasileros/as na pauta histórica da cultura da escrita artística do país. É como se para essa gente nao existisse uma literatura de expressao afro no espectro das letras brasileiras.

“Suportam” um Cruz e Souza, um Lima Barreto, um Solano Trindade, que na minha visao nao recebem o tratamento de honra que merecem e sao secundárias, apesar da imensa obra desses autores.

Artistas como Cutí, Ele Semog, Conceicao Evaristo, Oubí, Carlos Limeira, Oswaldo de Camargo, um Abdias do Nscimento, por exemplo, sao totalmente desconhecidos das páginas dessa história ofical da litratura brasileira. Assim como desconhecem solenemente a famosa “Coleção Cadernos Negros”, publicação do Quilombhoje, que há mais de 20 anos revela autores e poetas afros e seus trabalhos.

Uma das grandes injusticadas e um bem emblemático exemplo desse apartheid literário é a figura da grande escritora Carolina Maria de Jesus, autora da obra definitiva “Quarto de Despejo”. Saudada entusiasticamente no tempo do lancamento de seu livro pela escritora e visionária Clarisse Lispector, a favelada Carolina Maria caiu no ostracismo e no silencio cruel do limbo que o racismo à la brasileiro forja para apagar a nossa presenca. A autora do celebrado “Quarto de Despejo”, Carolina Maria de Jesus, traduzida em 13 países, vendeu 1 milhão de exemplares e morreu pobre.

Mesmo o grande Lima Barreto, escritor e jornalista de ponta nos inícios do século passado e com uma obra marcante e fenomenal , foi rejeitado cínicamente a sua possível entrada na Academia Brasileira de Letras, cujo patrono é Machado de Assis, que os historiadores ainda insistem em pintá-lo de cal branco.

O ano passado o poeta e escritor Cutí entrou em uma polemica com o poeta Ferreira Gullar – conhecido principalmente pelo seu livro “Poema Sujo” – quando este senhor teve a discrepancia de afirmar num orgao de imprensa que nao existia “literatura negra”. Que isso era uma falácia. Recebeu o cacete que merecia, mas nao se retratou e seguiu em frente como sempre fazem quando atacam os afrodescendentes, como ainda estivessem nos tempos colonais das escravaturas. Esse mesmo Sr. Ferreira Gullar já se pronunciou várias vezes também contra as cotas que permitem a entrada de jovens negros e indígenas nas universidades públicas brasileiras. Por aí já vemos os naipes que regem essa elite intelectual e literária brasileira.

Esse “apagamento” cruel também está se refletindo na chamada Literatura Indígena. Autores e autoras como Daniel Mundukuru, Eliane Potiguara, Juvenal Payaya, o guarani Olivio Jecupé, Roní Wasiry Guará, só para citarmos alguns mais presentes e com obras solidificadas, sao assuntos da Antropologia, mas nao da História da Literatura como deveriam.

É por isso que devemos fazer uma revisao de baixo para cima na chamada história da literatura brasileira e que possa apartir de agora refletir verdadeiramente a imensa riqueza diversificada das artes literárias do Brasil. Indios e Afros nao sao mais objetos, assuntos ou temas para a escrituras de autores brancos, ou que se acham brancos, como foi até agora. Mas protagonistas e artistas competentes que possuem obras relevantes, nao folclóricas, como alguns antropólogos desavisados tentam coloca-los, e que merecem fazer parte do panteon onde estao entronizados uma Clarice Lispector, um Oswald de Andrade, uma Cecília Meireles, um Manuel Bandeira, um Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Castro Alves. José de Alencar e vai por aí a fora.

Precisamos romper e destruir esse apartheid e silencio que acorrentam a nossa Literatura e a História dessa Literatura no país.

Na foto arquivo, Clarice Lispector e Carolina Maria de Jesus no dia do lancamento da livro “Quarto de Despejo”, em 1960. Duas escritoras brasileiras: a primeira permanece, a segunda foi apagada criminosamente da História da Literatura Brasileira.

Ras Adauto, poeta

CULTNE – Literatura Negra – Cuti

Com imagens e edição de Filó Filho, o Cultne esteve presente na X Feira Preta realizada no último dia 18 de dezembro de 2011. Durante o evento foi lançado o livro de contos e poesias Cadernos Negros Volume 34, que contou com vários autores pertecentes ao Quilombhoje. Na oportunidade, o poeta e escritor Cuti falou ao Cultne sobre a Literatura Negra.Em 1978 surgiu o primeiro volume da série CADERNOS NEGROS, contendo oito poetas que dividiam os custos do livro, publicado em formato de bolso com 52 páginas. A publicação, vendida principalmente em um grande lançamento, circulou posteriormente de mão em mão, sendo distribuída para poucas livrarias, mas obteve um expressivo retorno dos que tiveram acesso a ela.

Desde então, e ininterruptamente, foram lançados outros volumes – um por ano – alternando poemas e contos de estilos diversos. A distribuição aperfeiçoou-se, procurando chegar a um público mais amplo e diversificado do que aquele atingido pelos primeiros volumes. Escritores de vários Estados do Brasil vêm publicando nos Cadernos. É preciso assinalar que não existem outras antologias publicadas regularmente com textos de autores afro-brasileiros, em grande parte devido às dificuldades financeiras inerentes às publicações deste tipo. Sendo assim, os Cadernos têm sido um importante veículo para dar visibilidade à literatura negra.

Cuti (pseudônimo de Luiz Silva) formado em Letras pela USP, Mestre em Teoria Literária e Doutor em Literatura Brasileira, pela Unicamp, publicou: Poemas da carapinha. (1978); Batuque de tocaia. (poemas, 1982); Suspensão.(teatro,1983); Flash crioulo sobre o sangue e o sonho.(poemas, 1987); Quizila. (contos, 1987); A pelada peluda no Largo da Bola. São Paulo. (novela juvenil, 1988); Dois nós na noite e outras peças de teatro negro-brasileiro.(1991); Negros em contos.(1996); Sanga.. (poemas, 2002). E em co-autoria: Terramara. (com Arnaldo Xavier e Miriam Alves) – teatro, 1988; …E disse o velho militante José Correia Leite. (memórias, 1992); Quilombo de palavras. (CD — poemas, 1997).

“A produção literária de Cuti procura romper com a versão oficial encenada pelo discurso pedagógico da nação — que inibe a presença da diferença — bem como, propor-se como um fazer literário onde a presença da coletividade negra se mostra dinâmica e atuante.” (Rosane de Almeida Pires)

 

Uma resposta para ““Um Apartheid na História da Literatura Brasileira”

  1. hawaiianbless

    setembro 22, 2012 at 7:05 pm

    Reblogged this on Hawaiianbless's space.

     

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