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“Coragem Civil – Zivil Courage!”

25 nov

A Passeata mais louca que já participei na minha vida de Ativista.

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Em 2.000, uma série de atentados violentos neonazistas na Alemanha levou a um levante coletivo da sociedade, numa reação até hoje sem precedentes

Um pool de organizações anti-nazistas, anti-racistas e outras fizeram uma campanha massissa nacional convocando a sociedade a se colocar frente ao avanço neonazis que estava se expandindo rapidamente e já com vítimas fatais e atentados a comércios e lojas de estrangeiros, cafés e bares de homossexuais e lésbicas, centros socais de estrangeiros, incêndios em moradias de refugiados africanos e ciganos, incêndio de prédio com famílias turcas dentro e assassinatos de pessoas, como o africano que jogaram pela janela do trem do metro na zona oriental de Berlin.

Essa chamada cresceu rapidamente com a grande adesão de personalidades políticas, sociais, econômicas, culturais e principalmente a adesão em peso da classe artística alemã. As mídias encamparam a campanha, até o jornalismo marrom e bafon, que é contra qualquer coisa, entrou no rodamoinho.

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Coragem Civil: Racismo! Não Obrigado!

Dessa poderosa ação  foi lançado uma organização/idéia, de eixo coletivo, chamada “Zivil Courage” (Civil Coragem). E por várias semanas comités se espalharam pelos bairros de Berlin explicando à população o que era a resistência Coragem Civil e convocava a população a fazer parte do grande movimento contra o racismo, contra o nazismo, contra a xenofobia, contra o sexismo, contra as guerras mundiais e pela Paz entre os Povos.

Nesse momento estava acontecendo um Festival de Música Brasileira no antigo Tempodrom, que era o nosso “Circo Voador” de Berlin. E naquela noite se apresentava o Olodum e seus tambores.

Antes do show aconteceu o lançamento do Zivil Courage para o público presente que lotava o circo. E para a breve cerimonia e rápidos debates do evento, João Jorge do Olodum e eu, Ras Adauto, junto com mais dois brasileiros residentes de Berlin, fomos convidados para compormos a mesa da cerimonia. A partir daí éramos membros do “Zivil Courage”.

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 “Ich bin eine afrodeustch” (eu sou uma afro-alema): a poeta May Ayim, símbolo-memorial da luta contra o racismo e contra o nazismo na Alemanha. May Ayim, the Afro-German poet, writer, activist.

Na semana seguinte acontecia então o grande lançamento público no centro histórico de Berlin. Uma gigantesca Marcha com cerca de 3. milhões de pessoas vindas de todas as partes da Alemanha e de vários países da Europa. Gente de todas as nacionalidades, cores, políticas, movimentos, acoes, etc marcharam naquele dia contra o racismo e contra o nazismo. O tema central era: “Ich bin deutsche auch” (Eu também sou alemão/alemã). Grandes paineis e galhardoes com imagens/fotos de afro-deutsches, africanos e outros afro-descendentes que vivem em Berlin vestidos com camisetas com a frase “Ich bin deutsche auch” estavam erguidos em muitos prédios ao longo da marcha. E outros símbolos também presentes eram a Estrela de Davi e os baloes verdes do Partido Verde alemao. Mas haviam outros símbolos, bandeiras, estandartes, posters, faixas e etc de todo tipo de organizações-políticos-sociais-culturais-artísticas, alemães e estrangeiras.

A passeata deu seu start às portas da Sinagoga da Cúpula Dourada, na Oranienburger Strasse, com o discurso da Presidente do Centro Judaico de Berlin.

Foi a passeata mais louca que já estive presente. Parecia que o mundo todo do mundo estava nela. Era um rio de almas carregando a idéia do Zivil Courage. E em alguns momentos todas as vozes num coro muito abismante gritavam: “Nazis Raus! Nazis Raus! Nazis Raus!”. (Fora Nazistas! Fora Nazistas! Fora Nazistas!) E os edifícios vibravam com aquele rugido ensurdecedor das ruas.

Quando caiu à noite, holofotes, desses que vasculham as noites de guerras, varriam luzes sobre a passeata, enquanto centenas e centenas de carros de polícia, bombeiros, ambulâncias e defesa civil piscavam suas luzes vermelhas, amarelas e azuis como grandes pirilampos. Aí se acenderam às milhões de velas pelas vítimas do nazismo e do racismo. E uma imensa serpente de luzes se rastejou pela noite especial e inesquecível de Berlin.

Foi a primeira passeata do Leon, no momento com 1 ano. Lembro-me bem, ele no carrinho de olhos arregalados olhando pirado aquela coisa toda passando diante dele.

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foto/propaganda: zivil courage: “Nazis Raus!” (Fora Nazis!)

Nós somos do Zivil Courage!

Negra Panther.

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Poema da ativista, escritora, educadora e poeta afro-alemã  May Ayim:

“AFRO ALEMÃ ?”

“Ah, sim! Afro-alemã?

ah, entendo: africana e alemã.

Isso sim que é uma mistura interessante!

Saiba voce, todavia, que existem pessoas que pensam

que os “mulatos” não podem

chegar tão longe

como os brancos.”

 May Ayim,

tradução: Ras Adauto

Linton Kwesi Johnson – Reggae para May Ayim

 

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