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Arquivo mensal: abril 2016

Jovem Negro Vivo pelo Mundo: cineasta debate na Suíça sobre racismo e violência policial

 

adaPor: Yasmin Thayná

A cineasta e estudante de jornalismo Yasmin Thayná, 23 anos, participa a convite da Anistia Internacional de uma série de debates na Suíça sobre violência policial e discriminação racial no contexto da preparação da cidade do Rio de Janeiro para os Jogos Olímpicos de 2016.

Thayná realizou a fala de abertura do encontro anual da Anistia Internacional Suíça. Renata Neder, assessora de direitos humanos da Anistia Internacional Brasil, também participou do evento. A agenda de mobilização faz parte da iniciativa Jovem Negro Pelo Mundo, que já passou pela Inglaterra, Holanda, Espanha e Estados Unidos. Abaixo, reproduzimos um post com as impressões da cineasta de Nova Iguaçu, diretora e roteirista do curta-metragem KBELA (2015), publicado em seu perfil no Facebook. Acompanhe aqui e em nossas redes sociais os próximos passos da jornada.

É Golpe

A primeira coisa, talvez, que acontece com o nosso corpo quando chegamos em um lugar muito diferente do território que vivemos é o estranhamento.

Comigo não seria diferente: apesar de ter sido o país que colonizou o Brasil, e digo isso porque reconheço que podem haver certas semelhanças, quando pisei meus pés em Lisboa, eu estranhei demais.

Tudo muito diferente do que eu já tinha visitado no Brasil, pois fora do país, visitei apenas Cabo Verde, que, pra mim, não causou tanto estranhamento. Pelo contrário: me identifiquei desde a hora que entrei no avião, em Recife, partindo para a cidade de Praia, em Cabo Verde.

Em Lisboa, embora não tenha saído do aeroporto, olhei tudo: os relógios, as portas automáticas que abriam de maneira diferente para que as pessoas pudessem passar, as pessoas tão misturadas, os sotaques, as cores, os rostos. O primeiro pensamento, meio tonta no corredor do aeroporto, foi uma citação: “Professora me desculpe, mas agora vou falar. Esse ano na escola as coisas vão mudar. Nada contra ti, não me leve a mal: quem descobriu o Brasil não foi Cabral” BANDIDA, Carol. Era uma ótima frase para colocar no aeroporto do Rio de Janeiro (e em todos os livros de história do país).

Mas, voltando, aqui na Suiça, muitos negros. Imigrantes. Nossos corpos e olhares se encontraram: as mulheres, principalmente, ostentando seus blacks e seus casacões. Aqui, na cidade de Genebra, tem muita gente misturada, vi negros, orientais, brasileiros, indianos.

Faz frio e é possível ver um pouco da neve nas montanhas, o pouco que restou do inverno, de alguns meses atrás. Os membros da Anistia Suiça, que nos receberam (eu e Renata Neder, pesquisadora da Anistia Brasil), assim que nos viram, perguntaram sobre a situação política do país, pois os meios de comunicação local têm comentado. Eles sabem que é golpe.

Sobrevoando as lindas montanhas da Suiça, essa citação, da MC Carol Bandida, ecoava na minha mente. Tudo que ela diz, tudo que a história nos disse (e o que não tivemos acesso no colegial, e continuamos não tendo). E tem sido essa dedicação de pensar os processos históricos do campo da comunicação, racismo e violência no Brasil que desenrolarei a minha percepção sobre os preparativos para os Jogos Olímpicos que estão acontecendo no Rio de Janeiro. A convite dos grandes parceiros da Anistia Internacional Brasil, junto com a Anistia Internacional da Suiça, que participo de uma Conferência da Anistia Suiça sobre violação de direitos humanos. Essa edição, em especial, traz como tema os Jogos Olímpicos de 2016 e a questão da violência no Brasil será chave para a discussão do evento aqui na Suiça. Depois do final de semana de atividades, parto para outras cidades no país para continuar falando sobre isso.

No final da tarde, horas depois que cheguei em Genebra, fui visitar jovens suíços que são ativistas da Anistia aqui. A coordenadora dos ativistas disse que eu era uma surpresa para eles, que não sabiam quem eu era e estavam curiosos. Parecia que eu era uma espécie de Spike Lee brasileira, com tanto carinho e palmas que recebi, mas, olhando agora, tenho certeza que aquelas palmas foram para a juventude negra brasileira que resiste e que têm demonstrado, cada vez mais, que nossas armas são outras.  Acompanhei o processo de construção que eles estavam armando para uma manifestação, que aconteceria no dia seguinte, sobre a violência policial no Rio de Janeiro. Estavam bastante engajados e interessados nessa questão. No final, jantamos juntos e eles me fizeram uma das perguntas mais difíceis: por que você quis fazer cinema?

Falando mais sobre a participação na Conferência, o Brasil tem enfrentado um (de tantos outros) desafio que, durante muitos séculos, se instaurou como norma: pessoas negras morrem diariamente em todo o território nacional por serem negras. Marcas do Brasil colônia ainda encontram-se presente no Brasil República do século 21: em 2012, 56.000 pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30.000 são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticado por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados. É o que disse a pesquisa da Anistia Internacional Brasil para a campanha Jovem Negro Vivo.

O Rio de Janeiro, uma das cidades que tem um número significativo em relação a esse extermínio da juventude negra, protagonizado por órgãos institucionais do Estado, como a Polícia Militar, recebe, no mês de agosto, o maior evento esportivo do mundo: as olimpíadas. Enquanto cineasta, jovem, negra, periférica, nascida e criada na Baixada Fluminense, região metropolitana do Rio de Janeiro, os apontamentos serão: por que ser negro no Brasil é correr risco de morte? Que mortes são essas? Como a imprensa tradicional trata a segurança pública no Brasil: quais são os enfoques, como é a narrativa? Quais são os grupos de comunicação organizados independente no Brasil que tem feito um trabalho com ética e responsabilidade?

A juventude brasileira está se beneficiando das Olimpíadas? Como a juventude percebe a vinda desses jogos na cidade? A cidade está mais violenta? Para que serve os projetos Lapa Presente e Lagoa Presente e como tem sido implementado um sistema de segurança para vigiar a juventude negra para os jogos e depois deles? O que é racismo institucional e como ele atua dentro dos órgãos públicos no Brasil? UPP (Unidade de Polícia Pacificadora: tudo, absolutamente tudo, é regulado pela polícia. Manifestações culturais populares de anos são impedidas de acontecer a partir do momento em que a polícia assume o território com uma promessa de pacificação. Afinal, o que a UPP garantiu? Pós copa do mundo: qual é o legado? Rafael Braga Vieira = preso por portar um material de limpeza)

Mas e as pessoas que vivem aqui: como tratam essa questão? O que tem sido feito em resposta a isso?

 

Fonte: Anistia Internacional/ceert

 
 
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